Tecnologia Blockchain para além do NFT

Tecnologia Blockchain
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Foi no começo do ano, mas parece que já faz muito mais tempo, que o NFT recebeu todas as atenções com a venda milionária da obra “Everydays — The First 5000 Days”, do artista Beeple, pela bagatela de US$ 69 milhões. O assunto em si não era novo, mas o alto valor alcançado na venda colocou a tecnologia blockchain no centro de várias discussões. Seria só mais uma bolha? Seria uma maneira de lavar dinheiro? É esquema pirâmide? Entre dúvidas, receios e mal-entendidos o foco na venda dos tokens não-fungíveis pode ter ofuscado algumas aplicações muito interessantes, para além do mercado de arte digital.

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Obra do artista Beeple “Everydays: the First 5,000 Days” vendida por US$ 70 milhões

A possibilidade de transformar uma obra digital em NFT, garantir sua originalidade e autenticidade e comercializá-la por meio de contratos inteligentes trouxe bastante autonomia para artistas e mais transparência com relação à questões relacionadas aos direitos autorais e recebimento de royalties, por exemplo. Artistas, das mais variadas áreas, aderiram ao criptoverso e – aliado ao surgimento de novas redes e/ou plataformas (cada vez mais eficientes) e chegada de mais investimentos – colaboraram para a consolidação dos NFT’s.

Mas precisamos reforçar duas características muito importantes da tecnologia blockchain: transparência de descentralização. Trata-se de uma espécie de livro-razão onde todas as transações confirmadas ficam registradas em blocos que são encadeados. Cada computador possui uma cópia integral da blockchain de modo a garantir transparência e consistência dos dados. Eu só posso gastar o que eu possuo e não há uma maneira de tapear o sistema, pois lembre-se: todo o histórico de transações realizadas está gravado em todos os computadores pertencentes àquela rede, não é possível alterar informações no “passado”.

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NFT’s ou tokens não-fungíveis

Nesse cenário de autonomia surgem os contratos inteligentes (smart contracts). De acordo com o criador do termo, “um contrato inteligente é um conjunto de promessas, especificadas em formato digital, incluindo protocolos nos quais as partes cumprem essas promessas”. Esse termo foi cunhado pelo cientista da computação e criptógrafo Nick Szabo em 1995 e ele usa o exemplo da máquina de refrigerante para ilustrar. Você digita sua opção, insere o dinheiro e a máquina, ao verificar que a sua parte foi cumprida, libera o seu pedido, sem intermediários, apenas usando o código de programação, o contrato é cumprido.

Na primeira geração de criptomoedas (Bitcoin) os contratos inteligentes eram usados basicamente para o registro das transações de compra/venda/transferência de moeda. Com a segunda geração (Ethereum) os contratos passaram a ser usados em um número maior de atividades, o que viabilizou, entre outras coisas, a cunhagem dos NFT’s e sua comercialização. Agora com a terceira geração (Cardano) a ideia é que os problemas das gerações anteriores sejam sanados.

A tecnologia blockchain já pode se prevista em diversas situações. Operações financeiras globais, com a eliminação de intermediários (instituições financeiras) ganha-se agilidade e a redução expressiva de taxas. No setor da saúde as pessoas podem ter seu histórico médico (consultas, exames, procedimentos, receitas, etc.) reunido em uma base única e ter o total acesso e controle dessas informações. Certificação e acompanhamento de toda a cadeia logística, desde a origem até o destino, de um produto. Identificação eletrônica, como o exemplo da Estônia, o país desenvolveu sua própria rede blockchain, chamada Ksi, projetada como uma solução de segurança centrada na privacidade para proteger redes, sistemas e dados. A Ksi é usada em diversos setores – desde dados de tribunais até identidade eletrônica.

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Construção da blockchain pelas pessoas

Os escândalos protagonizados pelo Facebook (agora Meta) já nos deram uma mostra do quanto a centralização de uma quantidade massiva de dados é prejudicial. Desde a pulverização de fake news até o bombardeio não autorizado de anúncios, passando por manipulações eleitorais. Nossos dados são recolhidos, vendidos e utilizados de maneira indiscriminada pelas grandes corporações e as únicas coisas que ganhamos em troca, na maioria das vezes, são alguns likes. A tecnologia blockchain é uma oportunidade de concretizar a web 3.0, um ambiente de rede feito pelas pessoas para as pessoas de maneira transparente, descentralizada e com controle sobre nossos dados e até a possibilidade de sermos recompensados pela disponibilização de nossas informações, mas nesse caso com o nosso consentimento, dentro dos limites preestabelecidos e sendo pagos para isso.

Não, a tecnologia blockchain não é a solução para todos os problemas, mas tampouco o é uma viagem espacial ou um algoritmo que determina nosso imaginário. A construção de um mundo mais justo atravessa as mais diversas frentes. Da mesma maneira que é possível vender obras de arte em NFT é possível produzir um dApp que coordena o recolhimento e redistribuição de mantimentos doados de forma transparente e sem a utilização indevida de dados. Os códigos são abertos e as ferramentas estão disponíveis, basta querer utilizar.

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Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.