Joel-Peter Witkin: há beleza no grotesco?

The Kiss -  Joel-Peter Witkin - 1982
The Kiss - Joel-Peter Witkin - 1982

Quando era criança, tinha uns quatro anos, a música Thriller do Michael Jackson estava no auge. Lançada em novembro de 1983, faz parte de um álbum de mesmo nome que é considerado por muitos como “o melhor álbum de todos os tempos”. Eu concordo, se não é o melhor, é sem dúvida um dos melhores. Essa canção tem um vídeo fantástico, mas quero atentar para a participação de Vincent Price no final da música. Com sua voz inconfundível eu arriscaria dizer que é a cereja do bolo, cereja essa que me atormentava naquela época: eu morria de medo da voz de Vincent Price!

 Joel-Peter Witkin
Michael Jackson – Thriller

O medo era real, mas não me impediu de gostar do gênero terror. Logo que meu pai comprou nosso primeiro videocassete, a primeira fita que aluguei foi “Hellraiser – Renascido do Inferno”. No cinema, na literatura e nas artes em geral o grotesco sempre foi retratado e povoou o imaginário de muita gente, quem nunca gostou de contar ou ouvir histórias de arrepiar? Minha mãe sempre conta os causos de assombração da época em que ela morava na fazenda, na sua infância, era (ainda é) uma delícia ouvir. Mas o horror não está apenas na fantasia.

Um amigo, fã de Black Metal, me apresentou a um documentário que conta um pouco sobre a cena dessa vertente do Heavy Metal na Noruega. O filme, de 2008, chama-se “Until the light takes us”, e foi concebido pelos diretores americanos Aaron Aites e Audrey Ewell. Confesso que não sou muito conhecedora desse gênero, mas um episódio mostrado no documentário, dentre outros bastante bizarros, abriu um paralelo muito interessante com o fotógrafo que abordarei logo mais. O cantor sueco Per Yngve Ohlin (16/01/1969 – 08/04/1991), conhecido como Dead e então vocalista da banda Mayhem, cometeu suicídio e seu corpo foi encontrado pelo colega de banda Euronymous (Øystein ‘Euronymous’ Aarseth – 22/03/1968 – 10/08/1983). Seria mais um caso no mundo da música não fosse um detalhe: Euronymous fotografou o corpo do colega e utilizou a foto na capa do disco “Dawn of the Black Hearts”, ele viria a ser assassinado dois anos depois.

Fotos de cadáveres, quem nunca? Contém ironia! A fotografia também tem seus representantes. Guerras, conflitos, acidentes e demais mazelas são temas recorrentes e muitas vezes premiados no cânone fotográfico. E o paralelo que gostaria de fazer chega agora com um dos meus favoritos: Joel-Peter Witkin. Existe beleza no grotesco? Quando olho para suas fotos acredito que sim. É uma espécie de poesia visual gótica que nos faz pensar, por meio de muitos símbolos, a nossa condição de humanos, para o bem e para o mal. Em 2012 tive a oportunidade e o privilégio de ver a exposição “Enfer ou Ciel” (Inferno ou Céu), na Biblioteca Nacional da França, com obras de Witkin e algumas gravuras de outros artistas que ajudavam a compor a mostra. O nome já nos dá uma dica, Witkin é extremamente religioso (católico praticante) e ele considera suas fotografias como preces que ele oferece a Deus.

 Joel-Peter Witkin

Witkin utiliza, em algumas de suas criações, cadáveres não reclamados no necrotério, em outros casos utiliza modelos (vivos) pouco convencionais. Sim, ele é um dos meus favoritos. Não, eu não me sinto totalmente confortável com a utilização de corpos sem vida. Quando vi no documentário a utilização da foto do Dead morto (ironia pronta) fiquei chocada. Mas depois de refletir um pouco mais sobre o assunto percebi que o que Euronymous fez não chega a ser algo fora do convencional, principalmente se pensarmos nos dias atuais em que nossas time-lines são inundadas com vídeos e fotos de acidentes, e não podemos esquecer que, quando se trata de pessoas famosas, muito antes da febre de celulares com câmeras e redes sociais essas fotos eram compartilhadas e consumidas de alguma maneira, fosse em programas de tv e jornais sensacionalistas ou até mesmo pelo bom e velho email.

Tenho um pé atrás com relação às dicotomias, na minha visão o “entre” tem muita importância. A vida e as coisas são complexas e, como não poderia deixar de ser, valorizo muito as várias nuances existentes entre o claro e o escuro, mas não podemos negar o lado obscuro de nossa humanidade e essas imagens e representações são capazes de trazer à tona o que muitas vezes nos recusamos a enxergar. Engana-se quem pensa que nossa condição de humano é garantida. Ao longo da história ela foi construída e desconstruída e ainda hoje, em muitas situações, precisamos reivindicá-la. O grotesco funciona como um espelho para nossas próprias deformidades e nos lembra da luta sem fim, até o momento, para afirmar nossa humanidade.

A fotografia também pode ser desconfortável e, em alguns casos, é recomendável que ela seja, que nos faça refletir e questionar o estado das coisas. Dor, sofrimento, injustiça e morte. Clarice foi cirúrgica quando disse, em “A hora da estrela”, que “a vida é um soco no estômago” e digo mais, antes desse soco ela dá, às vezes, um belo de um tapa na nossa cara. Claro que a vida não é só isso, mas é isso também e precisamos encarar os fatos se quisermos mudar.

Eu não sei quanto a você, mas eu não consigo não pensar nas coisas que não funcionam a contento em nossa sociedade e talvez seja por isso que retornei para a vida estudantil, para tentar entender por que somos assim. Tudo parecia muito simples, mas a verdade é que quanto mais estudamos mais dúvidas aparecem. Não existe aquela teoria que seja capaz de dar conta de tudo, mas se tem algo bom que o retorno à universidade me proporcionou foi, pelo menos, fazer algumas perguntas certas e achar as pistas que me levarão a ter uma ideia da resposta, ainda que provisória.

Alguns fotógrafos foram/são inquietos com relação às mazelas do mundo. Eu poderia citar vários como exemplo, mas gostaria de ressaltar um em especial. Sempre que penso na contribuição que podemos dar à sociedade, recordo-me do trabalho do fotógrafo e sociólogo Lewis W. Hine (1874-1940). Suas fotos sobre o trabalho infantil nos Estados Unidos, feitas a partir de 1908, captaram de maneira primorosa, um paradoxo, a vida árdua e sofrida das crianças trabalhadoras e ajudou a alterar a legislação nos EUA. Vale muito à pena pesquisar essas imagens e o trabalho de Hine na internet. Susan Sontag tem uma frase que explica muito bem a função desse tipo de fotografia: As fotos são meios de tornar “real” (ou “mais real”) assuntos que as pessoas socialmente privilegiadas, ou simplesmente em segurança, talvez preferissem ignorar (SONTAG, 2003, p.12).

As preces fotográficas de Witkin nos lembram que nem todos estão dentro dos padrões de beleza, que existe o diferente e que existe a morte. Talvez ele conceda algum sentido para aquelas existências que se extinguiram sem que ninguém percebesse. Talvez utilizar esses corpos não reclamados seja uma maneira de tornar essas pessoas percebidas, ainda que post mortem. E ele nos faz recordar de tudo isso com beleza e poesia.

Quando assistimos a filmes de terror em momentos críticos tendemos a fechar os olhos, mas o horror não está apenas nas telas. Não olhar para um problema não faz com que ele deixe de existir e isso é válido para nossa vida pessoal também. São nossas ações que podem promover a mudança. Eu acredito que a arte pode e deve ter a função de mostrar aquilo que muitas vezes preferimos ignorar, abrir nossos olhos. Ela não muda nada além da nossa percepção, somos nós que precisamos agir. Quando ainda tinha o blog Homo visualis eu criei um mantra para me ajudar a não esquecer o meu (nosso) papel. Eu gosto muito e ainda o preservo: estar sempre com os olhos abertos, os ouvidos atentos, a imaginação fértil e a língua afiada.

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Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.