Impressão de fotos: apenas “un recuerdo”

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Foto: Ana Paula Umeda

A impressão de fotos ainda é importante? No dia 1º de junho (2021) o Google encerrou o serviço gratuito e ilimitado do Google Photos, a partir de então cada usuário terá 15GB para guardar suas imagens/vídeos, sem afetar o que já estava armazenado antes dessa data, e contará com serviços pagos de armazenamento em nuvem oferecidos pela empresa, caso seja necessário. Não é novidade o grande volume de fotos e vídeos que é produzido a todo instante, com o avanço da tecnologia dos smartphones estes arquivos estão com melhor qualidade e consequentemente maior tamanho. Em algum momento esse armazenamento ilimitado se tornaria inviável e esse momento chegou.

Na época em que existia apenas sua versão analógica, a fotografia se realizava com a ampliação. O filme era exposto, revelado e uma ampliação em papel fotográfico trazia, finalmente, a foto. Não fazia sentido nenhum apenas revelar os filmes, o processo ficaria incompleto. Da mesma maneira os cliques eram contados. Filmes de 12, 24 ou 36 poses (35mm), os mais utilizados, é claro, que variavam de preço de acordo com as quantidades. Cada quadro tinha que ser bem utilizado assim como o filme precisava ser terminado para seguir para revelação/ampliação. Na retirada não era difícil ver que algumas imagens ficaram tremidas, subexpostas, estouradas, com uma cabeça cortada, sem foco ou pior: o filme tinha “queimado”.

A chegada do digital e a possibilidade de ver a imagem capturada em tempo real (ainda que pequena), sendo que a única limitação com relação à quantidade era a capacidade do cartão de memória (que de todo jeito poderia ter os arquivos apagados e ser reutilizado), trouxe uma nova maneira de experimentar a fotografia. De repente ela começou a se realizar já no visor da câmera e depois na tela do computador, o papel passaria a ser opcional. Com as câmeras nos celulares foi a vez do computador se tornar opcional, a possibilidade de carregar as imagens diretamente nas redes sociais e demais aplicativos revolucionou de vez a experiência da imagem.

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Sempre me pergunto: o que será do/a arqueólogo/a do futuro? – Foto: Ana Paula Umeda

Mas o papel não deixou de existir! Não, pelo contrário, o desenvolvimento da impressão fine art e dos fotolivros também representam uma revolução, mas a foto impressa ou ampliada (pois o filme também não desapareceu) ficou restrita às ocasiões mais especiais, por assim dizer. O registro cotidiano, em sua grande parte (sempre há exceções), permanece guardado na nuvem ou nos dispositivos, a troca e envios, neste caso, é muito mais fácil.

Somos mais seletivos com relação às fotos que irão para o papel, mas com o serviço de armazenamento pago precisaremos ser criteriosos também com relação à guarda dos arquivos. Mas o que isso significa?

Significa que ao contrário do que muitos imaginavam o digital possui sim suas limitações e que no final quem paga o preço, como geralmente ocorre, somos nós mesmos. E nem entrarei no risco de desaparecimento dos arquivos que existe, mesmo com os serviços pagos.

Como num combo de remake-reboot-remaster revivemos problemas antigos, mas com roupagem nova.

Como normalmente ocorre dentro do atual modo de vida, a solução mais imediata é sempre gastar mais.

Como numa seleção nada natural, nem todos têm o privilégio de guardar as suas memórias.

Este texto não tem conclusão, mas você pode deixar a sua nos comentários. Vou terminar com uma história que quem me acompanha nas redes já deve ter visto:

Hoje eu tive uma saudade especial de uma viagem que fiz em 2012, hoje sei que era outra vida. Talvez sejam esses tempos difíceis, e talvez, nesses momentos, um dos remédios para tentar aliviar um pouco a preocupação e as incertezas sejam nossas boas lembranças. Um tempo em que podíamos nos movimentar e conhecer lugares e pessoas. Girona é um desses lugares. Cidade perto de Barcelona que foi uma das locações da famosa série que eu não assisti “Game of Thrones”.

Eu não sei se é minha maneira de enxergar o mundo, mas coisas muito peculiares costumam acontecer comigo e a foto desses dois rapazes foi uma delas. Eles pediram para tirar uma foto deles, eu imaginei que eles me dariam uma câmera para registrar os dois, mas eles queriam que fosse com a minha. Seria “un recuerdo” para mim. Eu achei estranho, não os conhecia, mas hoje revisitando meus arquivos essa lembrança me emocionou e realmente ficou marcada. Não sei seus nomes, não sei como estão, mas recordo com carinho desse dia em Girona. Sem dúvidas um belo “recuerdo”.

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Un recuerdo – Foto: Ana Paula Umeda
Escrito por

Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.