A palavra collab virou comum. Está na moda, no design, na música, na arte urbana, no digital. Mas quanto mais o termo se populariza, mais ele é usado de forma equivocada.

Nem toda parceria é uma collab.
Nem todo produto com dois nomes é colaboração criativa.

Para entender o que é collab de verdade, precisamos separar conceito de tendência.


Colaboração sempre existiu — mas com outras estruturas

A colaboração entre criadores e instituições é antiga. Durante o Renascimento, artistas não trabalhavam isolados: produziam sob encomenda de igrejas, nobres e estados.

Quando Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina para o Vatican, havia ali uma relação entre criador e instituição. Mas não era exatamente uma collab no sentido contemporâneo. Era uma encomenda com direção clara e hierarquia definida.

Séculos depois, já na Revolução Industrial, empresas começaram a perceber que arte agregava valor simbólico ao produto. A fabricante inglesa Wedgwood integrou referências artísticas à produção de cerâmica, aproximando cultura e indústria.

Esses movimentos foram importantes, mas ainda não configuravam o que hoje chamamos de collab estratégica.


O nascimento da collab moderna

A collab moderna começa quando duas identidades fortes se encontram para criar algo que nenhuma delas faria sozinha.

Na década de 1930, a estilista Elsa Schiaparelli trabalhou com Salvador Dalí em peças que misturavam surrealismo e alta-costura. O resultado não era apenas produto. Era discurso visual compartilhado.

Ali surge algo essencial:
a criação conjunta de narrativa.

Esse é o ponto de virada.


A era das collabs culturais

Com o avanço da cultura urbana, do hip-hop, do skate e da internet, as collabs se tornaram ferramentas de posicionamento.

Um dos casos mais emblemáticos foi Louis Vuitton × Supreme. A união entre luxo tradicional e streetwear não era apenas comercial — era simbólica. Representava a mistura de dois universos culturais.

Outro exemplo é Nike × Travis Scott. Nesse caso, não se tratava apenas de colocar um nome em um tênis. A estética, o storytelling e a identidade do artista foram incorporados ao produto.

A collab vira então:

  • Dispositivo cultural
  • Estratégia de desejo
  • Ferramenta de construção de marca

O que realmente define uma collab?

Uma collab acontece quando:

  • Há troca real de identidade
  • Existe cocriação
  • Surge um produto ou projeto híbrido
  • O resultado carrega DNA de ambos os lados

Não é apenas soma. É fusão.


O que parece collab, mas não é?

Com a popularização do termo, outras estruturas passaram a ser confundidas com colaboração criativa.

Licenciamento

Licenciamento é quando uma marca autoriza o uso de sua propriedade intelectual mediante pagamento.

A Disney licencia personagens para fabricantes de produtos diversos. O fabricante paga royalties e pode usar a marca. Não há necessariamente criação conjunta.

Aqui temos exploração de marca, não cocriação.


Co-branding

No co-branding, duas marcas aparecem juntas estrategicamente, mas não criam algo conceitualmente novo.

A parceria constante entre McDonald’s e Coca-Cola é um exemplo clássico. As marcas compartilham espaço e público, mas não estão desenvolvendo um produto híbrido com narrativa autoral.


Endosso

No endosso, uma celebridade representa uma marca. É contrato publicitário.

O vínculo inicial entre Michael Jordan e Nike começou como endosso. Só depois evoluiu para algo mais profundo, que deu origem a uma linha com identidade própria.


Por que as collabs se tornaram tão relevantes?

Vivemos uma era de saturação de produtos. O que diferencia não é apenas qualidade, mas significado.

Collabs funcionam porque:

  • Conectam comunidades
  • Misturam universos
  • Criam sensação de novidade
  • Produzem escassez estratégica
  • Amplificam relevância cultural

Elas operam tanto no mercado quanto no imaginário coletivo.


Collab não é modismo. É arquitetura estratégica.

Quando entendemos a diferença entre licenciamento, co-branding e colaboração criativa, conseguimos enxergar com mais clareza o que estamos construindo.

Collab não é colocar dois nomes em uma embalagem.

É criar algo que só existe porque duas identidades decidiram se cruzar.

E quanto mais essa interseção for genuína, mais forte será o impacto — cultural e comercial.

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