Mulheres Fotógrafas: 16 artistas para ficar de olho

Mulheres fotógrafas
Sabine Weiss Foto by JOEL SAGET/AFP

Já havia nos alertado Virginia Wolf “durante muito tempo na história ‘anônimo’ foi uma mulher”. As coisas já mudaram, é verdade, mas ainda há muito caminho a ser percorrido para a construção da igualdade de fato. No texto de hoje teremos uma seleção muito especial de mulheres fotógrafas, desde as pioneiras até jovens artistas da atualidade. Essa escolha nunca é fácil e obviamente não tem a pretensão de ser uma lista definitiva, é apenas um recorte. Eu admiro cada nome aqui elencado e tenho certeza que vocês gostarão também.

1) Constance Talbot (1811-1880)

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Constance Talbot, 1840

Constance Talbot, considerada a primeira mulher a fazer uma fotografia no mundo: a imagem de um verso do poeta irlandês Thomas Moore. Nascida em Markeaton/Derby, Reino Unido, foi casada com William Henry Fox Talbot, um dos inventores da fotografia. De acordo com o que nos é contado, foi durante a lua de mel, na Itália, que Fox Talbot, cientista e inventor, se deu conta de que Constance era uma artista muito mais habilidosa do que ele e a partir de então começaram seus esforços para conseguir capturar uma imagem sem a necessidade de desenhar, ele desenvolveria um processo positivo-negativo em papel, que devido à baixa qualidade e durabilidade, na época, ficou ofuscado pelo invento de Daguerre, o daguerreótipo.

Acredita-se que muitas imagens creditadas como sendo de Fox Talbot sejam, na realidade, de Constance. Mais de 2000 desenhos e aquarelas produzidos por Constance permaneceram guardados na residência do casal (Lacock Abbey) e só se tornaram públicos quando foram digitalizados em 2009, por meio de uma parceria entre o National Trust e o Watercolour World e podem ser vistos online:

https://www.watercolourworld.org/collection/lacock-abbey-%E2%80%93-national-trust-collection.

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Constance Talbot – Verso de Thomas Moore

2) Gioconda Rizzo (1897-2004)

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Gioconda Rizzo, 1953

Gioconda Rizzo, considerada a primeira fotógrafa do Brasil. Descendente de italianos, nasceu na cidade de São Paulo em 18/04/1897. Seu pai, Michelle Rizzo, era fotógrafo e dono do estúdio Rizzo Photographia Central, que ficava na Rua Direita, na capital paulista. Autodidata, foi observando o trabalho de seu pai que Gioconda, aos 14 anos, começou a fotografar escondida. Tendo seu talento reconhecido pelo pai, iniciou seus trabalhos no estúdio fotografando mulheres e crianças, pois não pegava muito bem uma moça de família ficar a sós com homens.

Em 1914 a jovem fotógrafa, com o acompanhamento da mãe, montou seu próprio espaço o Photo Femina que, dentre outras inovações, foi responsável por estabelecer um novo enquadramento para fotografias de mulheres. As fotos tradicionais de corpo inteiro, sentadas ou em pé, deram lugar a um tipo mais íntimo de imagem onde apenas o rosto, colo e ombros entravam no quadro. Esse tipo de enquadramento fez muito sucesso na época, mas o estúdio próprio de Gioconda teve uma vida breve, ele fechou em 1916 depois que um dos seus irmãos “percebeu” que o estúdio era frequentado por cortesãs e não apenas damas da sociedade. Gioconda, dessa maneira, volta a trabalhar com o pai.

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© Gioconda Rizzo – Zeze Leone Miss Brasil 1923

3) Gertrudes Altschul (1904-1962)

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Gertrudes Altschul, 1950 – Luciana Brito Galeria

Gertrudes Altschul nasceu em Berlim, Alenhama e veio para o Brasil em 1939, fugindo do regime nazista. Se estabeleceu em São Paulo e dividia suas atividades entre a fábrica de produção de flores para chapéus da família e a fotografia. Foi uma das poucas mulheres a fazer parte do Foto Cine Clube Bandeirantes (FCCB) em São Paulo. O FCCB reunia fotógrafos alinhados com o movimento conhecido como Escola Paulista, pilar da fotografia moderna no Brasil. Ela começou a frequentar os workshops nos anos 1940 e foi aceita como membra em 1952.

Até o dia 30/01/2022 é possível visitar a mostra Gertrudes Altschul: Filigrana, no MASP. De acordo com o site da exposição, “a produção fotográfica de Altschul esteve em sintonia com a linguagem da fotografia moderna brasileira, que buscava romper com os princípios clássicos da composição por meio de construções geometrizadas, tanto abstratas quanto figurativas, e de experimentações com luz, sombras, linhas, ritmos, planos e processos de revelação e de ampliação. Nesse contexto, os principais temas de Altschul se concentram na arquitetura moderna brasileira e nos motivos botânicos, sobretudo as folhas, bem como nos objetos do cotidiano em diferentes escalas, espécies de naturezas-mortas fotográficas”.

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© Gertrudes Altschul Composição – 1950 Impressão sobre papel prata-gelatina – Coleção Isabel Amado – São Paulo

4) Cig Harvey

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Cig Harvey – site

Cig Harvey é uma fotógrafa e escritora britânica que explora o cotidiano, a intimidade e a natureza. Suas fotos são carregadas de sensibilidade e mistério com forte inspiração no realismo fantástico. Cores, flores e personagens enigmáticas nos convidam a fazer a leitura dessas narrativas. Ela considera seu trabalho como um híbrido entre fotografia e poesia que se dedica a abordar o sentir, o que é ser humano. Seu trabalho já foi publicado em diversos veículos de renome e suas fotos estão nas coleções de importantes instituições. Vale a pena visitar seu Instagram e entrar em contato com esse mundo mágico criado pela artista.

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© Cig Harvey – site

5) Mary Beth Meehan

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Mary Beth Meehan – site

Mary Beth Meehan é fotógrafa independente, escritora e educadora. Nascida em Brockton, Massachusetts/EUA, seu interesse por fotografia foi despertado quando um tio começou a estudar fotografia em Nova Iorque, nos anos 1970, e passou a presentear Mary com livros de fotografia e ela optou por seguir a carreira de fotojornalista. Mary se insere nos grupos e consegue criar retratos em profundidade das suas comunidades. As imagens abordam questões de imigração, cultura e mudanças e possuem uma grande carga emocional. De acordo com a artista sua intenção é “criar conexões entre as pessoas e inspirar uma empatia que transcende a economia, a política e a raça”. Discutindo temas como identidade, visibilidade e inclusão, seus projetos sempre incluem ações que promovam diálogos com a sociedade civil além de apresentar instalações com impressões em grande escala em locais públicos. Esses banners, que emprestam a escala dos anúncios OOH (Out of Home), servem para trazer visibilidade para os habitantes locais e promover reflexões sobre a comunidade. Siga no Instagram.

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© Mary Beth Meehan
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© Mary Beth Meehan

6) Tsion Haileselassie

© Tsion Haileselassie Autorretrato - Twitter
© Tsion Haileselassie, autorretrato – Twitter

Tsion Haileselassie é uma jovem fotógrafa autodidata natural de Adis Abeba, Etiópia. Sua fotografia de rua busca capturar o cotidiano da sua cidade natal de maneira mágica e sensível. Seus retratos e autorretratos também são carregados sensibilidade e nos falam, com simplicidade e potência, sobre intimidade e vulnerabilidade. É membra do African Women in Photography e vale a pena acompanhar o seu Instagram.

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© Tsion Haileselassie

7) Hannah Whitaker

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Hannah Whitaker photo by Matthew Porter

Hannah Whitaker é uma fotógrafa americana, natural de Washington/DC, que vive e trabalha em Nova Iorque. Quando olhamos para as imagens produzidas por Hannah, a princípio, podemos acreditar que tratam-se de colagens. Mas como nos explica uma reportagem da revista Time, sobre a artista, Hannah utiliza a experimentação analógica com a manipulação digital. Fotografando com uma 4×5, Hannah explica que “cada chapa pode se transformar em vários dias de produção se considerarmos todo o trabalho de pré-produção e planejamento que acompanha”. O resultado são criações extremamente meticulosas e complexas, arte e ciência em plena harmonia. Confiram o Instagram da artista.

© Hannah Whitaker
© Hannah Whitaker

8) Juh Almeida

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Juh Almeida – foto site Grandes Nomes da Propaganda

Juh Almeida é baiana, cineasta, diretora de fotografia e fotógrafa, vive atualmente em São Paulo. Entre outros trabalhos, roteirizou e dirigiu o curta-metragem Náufraga (2018), vencedor na categoria de melhor curta-metragem baiano no XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema e selecionado em inúmeros festivais dentro e fora do Brasil. Ela faz parte do DAFB – Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil, do catálogo Women Photograph, e é associada à APAN – Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro. Suas imagens nos trazem vivências e narrativas negras de maneira experimental e poética. Estética, cultura e identidade capturadas com sensibilidade e beleza. Acompanhem o Instagram da artista.

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© Juh Almeida – Instagram

9) Angelica Dass

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Angelica Dass – site da artista

Angelica Dass é uma premiada fotógrafa brasileira que atualmente vive e trabalha na Espanha. Seu trabalho combina fotografia, pesquisa sociológica e participação pública na defesa dos direitos humanos. Ela possui um extenso trabalho em andamento chamado “Humanæ” que busca a documentação das verdadeiras cores de peles, para além dos tons genéricos (preto, branco, amarelo, vermelho), de maneira a mostrar que o que define o ser humano é a sua singularidade. Um trabalho bastante expressivo que já conta com quase 4.000 voluntários, com retratos feitos em 20 países diferentes e 36 cidades diferentes ao redor do mundo, graças ao apoio de instituições culturais, sujeitos políticos, organizações governamentais e organizações não governamentais. Siga a artista no Instagram.

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© Angelica Dass

10) Elisa Miralles

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Elisa Miralles – site da artista

Elisa Miralles formou-se engenheira química, mas fotografa desde 2007. Artista espanhola, ela é ganhadora de vários prêmios e bolsas e ainda organiza cursos e dá aulas de fotografia. De acordo com seu site, para Elisa “ser fotógrafa é uma forma de estar no mundo, relacionar-se com ele e tentar compreendê-lo. Meu trabalho fala sobre como as pessoas se relacionam entre si e com seu ambiente social, física e emocionalmente. Interessa-me a imagem que o indivíduo projeta de si mesmo e como constrói a sua identidade. O poder da sociedade, a pressão social e a tradição têm uma influência decisiva em nosso comportamento, limitando nosso desenvolvimento pessoal e nossas liberdades. Eu exploro questões relacionadas a gênero, estereótipos, construção de identidade e reificação de uma perspectiva feminista”. Imagens potentes e sensíveis, em uma atmosfera onírica, que nos faz refletir sobre corpo, intimidade e padrões. Não deixe de seguir no Instagram.

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© Elisa Miralles

11) Madalena Schwartz (1921-1993)

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Madalena Schwartz

Madalena Schwartz fotógrafa nascida na Hungria e radicada em São Paulo. Foi membra do Foto Cine Clube Bandeirantes e também é uma representante da Escola Paulista. Madalena era moradora do icônico edifício Copan e registrou de maneira essencial as personagens que conheceu na noite paulistana. Seus retratos vão de artistas transformistas e travestis até nomes como Ney Matogrosso e Elke Maravilha. Em 2021, o Instituto Moreira Sales (IMS) realizou a exposição As Metamorfoses – Travestis e transformistas na São Paulo dos anos 70, em comemoração ao centenário da artista.

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© Madalena Schwartz – pessoa não identificada – Acervo IMS
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© Madalena Schwartz – Elke Maravilha – 1983 – Acervo IMS

12) Elza Lima

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Elza LIma – Foto Sara de Santis – Medium

Elza Lima é natural de Belém do Pará, fotografa desde 1984 e é uma das mais importantes fotógrafas paraenses em atividade. A inspiração de Elza vem da infância e ela captura o interior da Amazônia como se fossem imagens vindas de seus sonhos de criança, invocando temas, cultura local, mitologias e histórias que seu avô contava, mesclando esse passado quase esquecido e o presente em constante mutação. Em 2021 o Centro Cultural Fiesp organizou a exposição O Norte sem Norte com fotografias da artista. Não deixe de seguir no Instagram.

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© Elza Lima – Trombetas – Pará – 1998

13) Vivian Maier (1926-2009)

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Vivian Meier – autorretrato

Vivian Maier foi uma fotógrafa americana. Apesar de ter nascido na cidade de Nova Iorque, Vivian passou a maior parte de sua juventude na França. Ela retorna para os EUA em 1951 e começa a trabalhar como babá e cuidadora, atividades que desempenharia durante toda a vida. Nas horas vagas Vivian se dedicava à fotografia de rua, são mais de 100.000 imagens. Sua história e fotos vieram à tona quando seu material foi descoberto em 2007, por John Maloof, ele adquiriu os negativos em um leilão, que reconheceu o valor artístico e histórico das imagens, mas foi somente após a morte de Meier que houve o reconhecimento de seu trabalho e o material começou a ser reproduzido na internet e em revistas especializadas, além da publicação de livros com o seu acervo e exposições. Em 2014 foi lançado o documentário “Finding Vivian Meier” (A fotografia oculta de Vivian Meier). Autodidata, Vivian conseguiu, de uma maneira bastante bela e peculiar, capturar as histórias que as ruas nos contam.

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Vivian Meier -1953 – New York – NY – © Maloof Collection

14) Graciela Iturbide

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Graciela Iturbide – site ICP

Graciela Iturbide, fotógrafa mexicana, começou com o cinema, mas migrou para a fotografia sob influência do fotógrafo, e seu professor à época, Manuel Alvarez Bravo. Graciela trabalhou como assistente de Bravo nos anos 1970-71. Foi durante uma viagem pela Europa que Graciela conheceu Cartier-Bresson. Bravo, Bresson e Tina Modotti são importantes influências para o trabalho de Graciela Iturbide. Em 1978 ela foi contratada pelo “Archivo Etnográfico del Instituto Nacional Indigenista de México” para fotografar a população indígena do México. Iturbide começou com o povo Seri, um grupo de pescadores nômades que vive no deserto de Sonora, próximo à fronteira com o Arizona. Desde então tem se dedicado a documentar os povos originários mexicanos e também os momentos turbulentos do país. Já foi convidada para trabalhar em diversos países e é considerada uma das mais importantes fotógrafas da história.

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Angelita – Sonoran Desert – 1979 – © Graciela Iturbide – Museum of Fine Arts Boston.

15) Aïda Muluneh

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Aïda Muluneh – Photo by Moustafa Cheaiteli

Aïda Muluneh nasceu na Etiópia, na capital Adis Abeba, mas ainda jovem teve uma vida itinerante passando pelo Iêmen, Inglaterra e Canadá. Graduou-se em Washington/DC e trabalhou como fotojornalista para o Washington Post e para outros veículos ao redor do globo. Já expôs em vários países e possui fotografias nas coleções de renomadas instituições. Aïda é a fundadora e diretora do “Addis Foto Fest (AFF), o primeiro festival internacional de fotografia da África Oriental que acontece desde 2010, na cidade de Adis Abeba. Ela mantém projetos educacionais, curadoria e desenvolvimento de projetos culturais com instituições locais e internacionais. Aïda produz retratos bastante expressivos e potentes. O uso de cores, pintura facial/corporal, vestimentas e cenários teatrais conferem às imagens um toque onírico que flerta com o surrealismo. Confira o Instagram da artista.

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© Aïda Muluneh – site

16) Sabine Weiss (1924-2021)

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Sabine Weiss Foto by JOEL SAGET/AFP

No dia 28/12/2021 a fotógrafa franco-suíça Sabine Weiss nos deixou. A notícia foi dada no dia 29 e os principais periódicos do mundo enfatizaram: “a última fotógrafa humanista”. A fotografia humanista surgiu na França, entre seus maiores expoentes estão Capa, Bresson, Doisneau, Boubat e, é claro, Sabine Weiss, mais discreta e menos conhecida que seus colegas. Fotografia humanista é sobre pessoas comuns, cotidiano, sensibilidade e emoção. Como disse Sabine, em uma entrevista, “nunca pensei que estivesse fazendo fotografia humanista. Uma boa foto deve comover, estar bem composta e desnuda”. E assim são as fotografias de Sabine Weiss.

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© Sabine Weiss – Les lavandières – Bretagne 1954

 

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© Sabine Weiss – Robert Doisneau – 1986

 

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© Sabine Weiss – Rue Flamand – Paris 1952
Escrito por

Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.