Exposição Fine Art – breve introdução

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Quando adentramos o espaço onde uma exposição fine art está instalada, seja um museu, uma galeria, um centro cultural ou até mesmo um restaurante, intuitivamente procuramos por uma história. Expor é, em sua essência, isso: contar uma história. Não importa se por meio de pinturas, fotografias, textos, esculturas e afins, a narrativa está presente para além das obras que compõem a mostra e podemos dizer que o sucesso de uma exposição é diretamente proporcional ao grau de absorção dessa história pelo seu público.

Uma obra, depois de concebida, adquire vida própria e pode ser apresentada, recontextualizada ou ressignificada de acordo com nossa criatividade. Mas como garantir que a mensagem chegue ao espectador/a de maneira assertiva? Podemos argumentar que cada pessoa experimentará uma exposição de acordo com a sua bagagem, mas a ideia não é impor uma interpretação oficial ou correta, mas guiar nossos visitantes como uma espécie de fio de Ariadne. Para que isso seja possível o bom planejamento de uma exposição é fundamental.

Dois conceitos são importantes e muitas vezes confundidos, como nos explica Marília Xavier Cury (CURY, 2005:27):

Museografia e expografia são termos em voga, mas mal utilizados e é conveniente esclarecê-los. Museografia é termo que engloba todas as ações práticas de um museu: planejamento, arquitetura e acessibilidade, documentação, conservação, exposição e educação. A expografia, como parte da museografia, “visa à pesquisa de uma linguagem e de uma expressão fiel na tradução de programas científicos de uma exposição” (DESVALLÉES, 1998:221), é a forma da exposição de acordo com os princípios expológicos e abrange os aspectos de planejamento, metodológicos e técnicos para o desenvolvimento da concepção e materialização da forma (CURY, 2003a:172).

É sobre a expografia que faremos uma breve introdução que, em resumo, engloba o planejamento e a execução de uma exposição. O roteiro a seguir pode ajudar bastante.

exposição fine art

1) Definir: Por que fazer? O que fazer? Para quem fazer?

Responder a essas três perguntas parece ser o passo inicial de qualquer projeto. Temos uma ideia, uma história para contar. Pode ser uma série fotográfica ou um conjunto de gravuras, precisamos pensar: por que devo mostrar essas obras? Qual a importância de mostrar essas imagens? O que elas trariam de novo?

Uma vez respondidas essas questões partimos para o próximo questionamento: qual seria a melhor maneira de contar essa história? Como essas imagens devem ser expostas? Finalmente e talvez o ponto mais crítico: para quem? Qual o meu público? Para quem endereço essa narrativa? De posse dessas respostas podemos seguir para a etapa seguinte.

2) Local, nome, duração, data

Algumas informações são vitais para o andamento dos trabalhos. Qual será o local da exposição? Para escolhermos um lugar precisamos levar em consideração: tamanho (planta baixa com medidas e áreas), se é um lugar público/privado, fechado/ao ar livre/misto, possui iluminação, acessibilidade, itens de segurança, conservação do acervo, necessidade de aluguéis/alvarás/licenças/autorizações, ele pode ser modificado (pintura, pregos, iluminação, tomadas, instalação de móveis/equipamentos/sinalização, etc.), o local fornece alguma estrutura básica (móveis, bancos, banheiros, bebedouros, etc.)?

A exposição será fixa ou itinerante? Se for itinerante como se dará o deslocamento/montagem nos locais (cada local precisará passar pelo mesmo critério de escolha). Será de curta, média ou longa duração? Qual a data? Vai coincidir com alguma comemoração? Isso será aproveitado? Não podemos nos esquecer que a duração também é determinada pelo orçamento. A verba que temos cobre quanto tempo de exposição?

E finalmente: qual o nome da exposição? Como escolher um nome que seja simples, porém que seja capaz de transmitir a ideia da exposição? Em 2004 tivemos “Picasso na Oca” e em 2009 “Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo” no Sesc Pinheiros. Simples e direto, dois artistas com retrospectivas que dispensam maiores apresentações. Já em 2016 tivemos na Caixa a exposição “A Valise Mexicana: a redescoberta dos negativos da Guerra Civil Espanhola de Capa, Chim e Taro”, um nome que precisava apresentar o detalhe mais importante da exposição: não eram fotos de guerra comuns, eram as fotos ampliadas a partir dos negativos que haviam sido perdidos no início da 2ª Guerra e haviam sido encontrados, em 2007, na Cidade do México, essa informação precisava aparecer no título. Cada contexto vai exigir uma decisão diferente.

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Exposição no IMS-SP (2017)

3) Conceito, objetivos, pesquisa, narrativa, resumo e definição dos módulos

O conceito pode ser entendido como uma síntese das ideias, como a “moral da história”. Nossa exposição precisa ter essa moral da história, esse conceito. E ele é construído a partir do traçado dos objetivos, do onde se quer chegar. Essa construção ainda envolve a pesquisa do(s) tema(s) e a escolha de como essa história será contada e quais os elementos/módulos que darão suporte à narrativa.

“Essa é a parte primordial, e deve ser sempre enfatizada. A exposição precisa ter uma intencionalidade, de modo que as escolhas sejam conscientes e direcionem o trabalho ao resultado que se busca. É preciso saber o que se quer dizer, para então desenvolver a maneira mais adequada possível para dizê-lo” (BORDINHÃO; VALENTE; SIMÃO, 2017:21).

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Exposição no MIS-SP (2016)

4) Montagem da equipe de trabalho, divisão de tarefas, pense nas ações educativas e nos recursos financeiros

Os recursos financeiros irão determinar, em grande medida, a magnitude da exposição. De acordo com a verba disponível podemos pensar nos itens que farão parte do projeto, as pessoas que precisarão ser contratadas, meios de divulgação e materiais de comunicação que serão produzidos.

Para cobrir todas as áreas precisamos de uma equipe multidisciplinar: design gráfico, arquitetura/cenografia/design de exposição, pedagogia/educação, história, museologia, financeiro e o curador. Destaco a importância do/a curador/a (ou grupo de curadores/as), ela será a responsável pela exposição, gerenciará o projeto, liderará a equipe e tomará as decisões necessárias.

5) Escolha e encaminhamento do acervo

Precisamos escolher quais obras farão parte da exposição. São trabalhos inéditos, feito especificamente para a ocasião ou peças já existentes? No caso, por exemplo, de fotografias ou artes digitais, elas precisarão ser impressas? Haverá diálogo com outros artistas/obras? As obras serão emprestadas de outras instituições, artistas ou coleções particulares? Essas escolhas deverão ser feitas de acordo com o conceito da exposição. As obras precisam estar seguradas e é preciso atentar para as questões de transporte e manuseio das peças. Isso deve ser feito com cuidado e por pessoas/empresas especializadas.

6) Criação da identidade visual, desenvolvimento das ações educativas

Temos uma narrativa e um conceito, está na hora de pensar na identidade visual da exposição, qual será a “cara” dessa exposição? “Um projeto de identidade visual tem o propósito de desenvolver a marca e os elementos gráficos que constituem a identidade visual de uma instituição ou de um produto” (MUNHOZ, 2011:17). A identidade visual será utilizada tanto na exposição quantos nos materiais de apoio, comunicação, divulgação, mídia e etc.

Outra etapa importante é pensar nas ações educativas que poderão ser desenvolvidas. Essas ações promovem um diálogo maior com o público, além de funcionarem como mecanismos de engajamento com a comunidade. Visitas mediadas, oficinas, palestras, livros, catálogos, jogos e intervenções são alguns exemplos dessas ações.

exposição fine art
Folders

7) Montagem do projeto: escolha dos recursos expográficos: cor, iluminação, suportes, textos, linguagem de apoio

Temos nossa narrativa, o conceito e a identidade visual. Chega o momento de colocar no papel o desenho da nossa exposição fine art levando-se em conta todas as decisões tomadas até então.

“Exposições vão muito além do ato de pendurar quadros em paredes ou objetos em vitrines com textos e legendas. Uma série de fatores pode influenciar na comunicação de uma exposição: cor, textura, som, iluminação, por exemplo. Os mesmos objetos dispostos de diferentes maneiras podem contar histórias totalmente distintas. Uma exposição que conta histórias, sem o uso de objetos, pode fazê-lo utilizando variados recursos” (BORDINHÃO; VALENTE; SIMÃO, 2017:43).

Precisamos atentar para a utilização das cores, como será a iluminação, quais suportes serão utilizados além de textos e a linguagem de apoio. Os suportes de informação são os textos, folders, banners, totens, legendas, catálogos, adesivações e demais materiais de comunicação. São importantes, pois apresentam informações adicionais sobre a exposição e auxiliam a guiar o público através dos objetos expostos. É preciso ter cuidado especial com a escolha de fontes e tamanhos, quantidade de texto, cores e legibilidade.

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Martin Parr no MIS-SP (2016)

8) Verificação de: segurança, climatização, conservação, acessibilidade

Os itens de segurança são indispensáveis para a segurança das pessoas, do acervo e do próprio local, sempre verificar extintores/brigada de incêndio, instalações elétricas, encanamentos, saídas de emergência, sinalização, chapelaria, condições de banheiros e bebedouros, acessibilidade (rampas, elevadores, piso tátil, Braille, LIBRAS, etc.) e a manutenção/segurança predial como um todo. A climatização correta dos ambientes vai colaborar para a conservação do acervo. De acordo com a sensibilidade das obras serão necessários cuidados especiais para estabilizar o ambiente e evitar a degradação físico-química do acervo.

9) Orçamento e Cronograma

O orçamento é essencial para manter despesas e receitas sob controle. Deve estar presente no projeto de exposição e os recursos disponíveis devem ser utilizados de maneira responsável para evitar imprevistos. O cronograma deve contemplar todas as etapas do processo – da concepção da ideia à avaliação dos resultados da exposição, inclusive os prazos dos fornecedores – e precisa estar ao alcance de todos os envolvidos para que seja cumprido. Atrasos e gastos não previstos podem comprometer a qualidade e a realização da exposição, por isso é importante ter uma margem de manobra na montagem do cronograma.

10) Divulgação

Nosso público-alvo precisa ser informado da exposição. A partir de um texto que contenha as principais ideias e objetivos, local, data e detalhes importantes poderemos confeccionar os materiais que serão dirigidos a esse público e utilizados na divulgação. Pode ser feita através dos meios tradicionais (jornal, revista, rádio, TV) e/ou pelas redes sociais (página no Facebook, perfil no Instagram, Twitter e até por Whatsapp). Campanhas de engajamento como criação de hashtags e check-in no local podem ajudar a espalhar a notícia e provocar a curiosidade/interesse em mais pessoas. Atentar para a utilização da identidade visual desenvolvida para a exposição.

exposição fine art
Aleksandr Ródtchenko na Pinacoteca-SP (2011)

11) Montagem

A montagem é o momento em que a exposição fine art é construída. Ela pode durar dias ou semanas, a depender do tamanho da exposição, é sempre bom colocar uma folga para a montagem no cronograma, pois alguns ajustes ou adaptações podem ser necessários. Ela deve ser feita por uma equipe especializada e ser acompanhada por alguém responsável. Ela vai desde a pintura de paredes, instalação de suportes e dos materiais impressos até a colocação do acervo, que deve ser feita por último por causa da sensibilidade dos objetos.

12) Manutenção e adaptações, se necessário

Uma vez montada e aberta ao público pode ser que algumas modificações/adaptações sejam necessárias, por isso é essencial ter o feedback dos visitantes. De acordo com a duração da exposição será necessário realizar limpezas programadas de vitrines e a verificação dos objetos.

13) Desmontagem

A desmontagem precisa ser feita com cuidado por uma equipe especializada. O acervo deve ser manuseado de maneira adequada e acondicionado em embalagens apropriadas. Essa etapa também precisa estar prevista no cronograma/orçamento e o local precisará ser entregue limpo e em boas condições, de acordo com o estabelecido no termo de uso.

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14) Avaliação

Duas avaliações são possíveis. Uma é aquela feita pelos responsáveis pela exposição onde são levados em conta os resultados alcançados, equipe, organização, gestão dos recursos, erros e acertos em geral. A outra é aquela feita pelo público por meio das impressões/lições trazidas pela exposição. Esse feedback pode ser conseguido com questionários e/ou pelo acompanhamento das reações nas redes sociais e canais de comunicação com o público. A partir dessas duas avaliações será possível buscar o aprimoramento para os projetos futuros.

Considerações Finais

Apresentamos uma breve introdução ao planejamento de exposições. Como pôde ser observado, o projeto de uma exposição fine art é complexo, compreende uma série de etapas e requer a participação de uma equipe bem sintonizada e diversificada. Como já mencionado, o tamanho e complexidade vai depender, em grande medida, dos recursos financeiros disponíveis, recursos esses que deverão ser utilizados da melhor maneira possível. Uma exposição pode abrir várias possibilidades de parcerias e patrocínios, mas mesmo no caso de editais, para que nossas ideias possam ser bem assimiladas e compradas, o projeto expográfico deve ser o mais completo e claro possível.

Aqui tratamos do assunto de maneira abrangente, mas cada um poderá fazer as adaptações necessárias para seu caso específico. Uma exposição em um lugar pequeno também vai necessitar de cuidados e planejamento. Para finalizar, o que precisamos é de um bom projeto com pitadas de ousadia e criatividade, expor vai muito além do simples pendurar do quadro na parede.

Referências Bibliográficas

BORDINHÃO, Katia; VALENTE, Lúcia; SIMÃO, Maristela dos Santos,. Caminhos da memória: para fazer uma exposição. Brasília, DF: IBRAM, 2017.

CURY, Marília Xavier. Exposição: concepção, montagem e avaliação. São Paulo: Annablume, 2005.

MUNHOZ, Daniella Michelena. Manual de identidade visual: guia para construção. Teresópolis: 2AB Editora, 2011.

Escrito por

Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.