Colecionismo de fotografia fine art

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A portrait of Nick's Roller Skating Girls - University of Washington Libraries, Special Collections, JWS24924

O desafio desta semana é falar sobre colecionismo. Por que colecionamos coisas? Confesso que gosto do tema, pois, entre outras razões, diz respeito à memória: selecionar, classificar e guardar fragmentos de tudo o que julgamos ser digno de salvação. Salvação do caos, da indiferença, do esquecimento. Existe sim esse aspecto meio mágico, meio religioso no ato de colecionar. À maneira de Deus, a humanidade também elege os seus escolhidos, existe um quê de Noé em cada um de nós, com a vantagem que podemos decidir como preencher as nossas arcas.

“Pois é preciso saber: para o colecionador, o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana”. Walter Benjamin – O Colecionador (p. 241)

Durkheim e Mauss nos dão algumas pistas sobre essa predisposição que a humanidade tem para classificar. No texto clássico “Algumas formas primitivas de classificação” – aqui cabe ressaltar que o texto foi publicado em 1903, hoje sabemos que o termo “primitivo”, quando se referindo à população autóctone, deve ser substituído por povos originários – após o estudo de diversos relatos feitos sobre a forma de organização desses povos, os dois, tio e sobrinho, chegam à conclusão de que essas formas não estão tão distantes das formas ditas ‘civilizadas ou científicas’:

“Em primeiro lugar, da mesma forma que as classificações dos eruditos, elas são sistemas de noções hierarquizadas. As coisas não se encontram dispostas simplesmente sob a forma de grupos isolados uns dos outros, mas estes grupos mantêm uns com os outros relações definidas e seu conjunto forma um só e mesmo todo”. Ainda sobre esses sistemas, um pouco mais a frente, complementam: “Seu objeto não é facilitar a ação, mas tornar compressivas, inteligíveis, as relações existentes entre os seres” (p. 197).

Algumas páginas depois eles nos contam que: “Existem afinidades sentimentais entre as coisas como entre os indivíduos, e elas se classificam segundo tais afinidades” e mais adiante explicam que “uma espécie de coisas não é simples objeto de conhecimento, mas corresponde antes de mais nada a uma certa atitude sentimental. […] As coisas, antes de mais nada, são sagradas ou profanas, puras ou impuras, amigas ou inimigas, favoráveis ou desfavoráveis; […]. Diferenças e semelhanças mais afetivas que intelectuais determinam a maneira pela qual elas se agrupam. É por isso – porque afetam diferentemente os sentimentos dos grupos –, que as coisas, de certo modo, mudam de natureza, segundo as sociedades. […] E é este valor emocional das noções que desempenha papel preponderante na maneira pela qual as ideias se aproximam ou se separam. É este valor que serve de caráter dominante na classificação” (p. 201).

O que é importante reter desses trechos destacados: nossa inclinação para o dualismo: bem/mal, claro/escuro, céu/inferno, útil/inútil e o caráter muito mais emocional que lógico da maneira que fazemos essas classificações. Tendo isso em mente podemos seguir adiante e abordar a questão do colecionismo, afinal colecionar nada mais é do que acumular coisas, mas não quaisquer coisas. A escolha desses itens é feita de acordo com nosso sistema de classificação. Pergunte para um colecionador ou colecionadora por que a opção por determinada coleção, a resposta provavelmente será: “porque eu gosto” ou “não tem um porquê, eu apenas adquiro”, aí entendemos porque é difícil encontrar uma explicação lógica, o motivo para iniciar uma coleção é muito mais sentimental, essas coisas escolhidas e agrupadas afetam seus colecionadores.

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Não tem como falar de Benjamin sem lembrar das “passagens”. Foto: Ana Paula Umeda, Paris, 2012.

Não tem como falar de colecionismo sem citar Walter Benjamin. Os textos “O Colecionador”, do livro Passagens, e o “Desempacotando minha biblioteca”, do Obras Escolhidas vol. 2, já são velhos conhecidos. São sempre citados nos textos que tratam sobre coleções e eu recomendo fortemente a leitura de ambos. Aqui eu vou citar alguns trechos de “O Colecionador” que conversam muito com o texto de Durkheim e Mauss:

“É decisivo na arte de colecionar que o objeto seja desligado de todas as suas funções primitivas, a fim de travar a relação mais íntima que se pode imaginar com aquilo que lhe é semelhante. Esta relação é diametralmente oposta à utilidade e situa-se sob a categoria singular da completude. O que é esta “completude” <?> É uma grandiosa tentativa de superar o caráter totalmente irracional de sua mera existência através da integração em um sistema histórico novo, criado especialmente para este fim: a coleção” (p. 239).

“Talvez o motivo mais recôndito do colecionador possa ser circunscrito da seguinte forma: ele empreende a luta contra a dispersão. O grande colecionador é tocado bem na origem pela confusão, pela dispersão em que se encontram as coisas no mundo. […] O colecionador, ao contrário (do alegorista), reúne as coisas que são afins; consegue, deste modo, informar a respeito das coisas através de suas afinidades ou de sua sucessão no tempo” (p. 245).

Colecionar talvez seja algo tão antigo quanto a própria humanidade, artefatos encontrados em túmulos paleolíticos podem indicar, pelo menos, a existência dessa propensão desde muito cedo. Desde a antiguidade a humanidade sempre se dispôs a formar grandes coleções, museus, galerias e coleções particulares que resistem e existem até os dias atuais são prova disso. Mas nem só de itens consagrados vive uma coleção. No livro “Coleção de Areia”, Italo Calvino, no capítulo que dá nome ao livro, nos conduz por uma exposição de coleções de coisas estranhas. “O fascínio de uma coleção está nesse tanto que revela e nesse tanto que esconde do impulso secreto que levou a criá-la” (p.13). Compartilho dois parágrafos que resumem bem o ato de colecionar:

“Mas onde a obsessão colecionista se dobra sobre si mesma revelando o próprio fundo de egotismo é num mostruário repleto de pastas simples de papelão amarradas por fitas, em que, sobre cada uma delas, uma mão feminina escreveu títulos como: ‘Os homens que me agradam’; ‘Os homens que não me agradam’; ‘As mulheres que admiro’; ‘Meus ciúmes’; ‘Meus gastos diários’; ‘Minha moda’; ‘Meus desenhos infantis’; ‘Meus castelos’; e até ‘Os papéis que envolviam as laranjas que comi’”.

“O que esses dossiês possam conter não é um mistério, pois não se trata de uma expositora ocasional, mas de uma artista de profissão (Annette Messager, colecionadora: assim assina), que fez de suas séries de recortes de jornais, folhetos de apontamentos e esboços várias mostras individuais em Paris e Milão. Mas o que nos interessa agora é justamente essa extensão de capas fechadas e etiquetadas e o procedimento mental que implicam. A própria autora o definiu claramente: ‘tento possuir e apropriar-me da vida e dos acontecimentos de que tenho notícia. Durante todo o dia folheio, recolho, ponho em ordem, classifico, peneiro e reduzo o todo à forma de vários álbuns de coleção. Essas coleções então se tornam minha própria vida ilustrada’” (p. 14).

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Ao reler o trecho de Calvino recordei-me do meu próprio dossiê. No meu caso trata-se de uma coleção de ideias soltas.

Como diria Benjamim, ainda em “O Colecionador”: “Possuir e ter estão relacionados ao caráter tátil e se opõem em certa medida à percepção visual. Colecionadores são pessoas com instinto tátil” (p. 241).

A questão tátil-simbólico-afetiva é importante, mas também não podemos deixar de lado o fator econômico envolvido nas coleções. Itens raros, edições de colecionador, tiragens limitadas, tudo isso proporciona sua valorização comercial. Ainda citando Benjamin: “Casimir Périer disse um dia, visitando a galeria de quadros de um ilustre amador…: ‘Tudo isso é muito bonito, mas são capitais que dormem’… Hoje… poderíamos responder a Casimir Périer … que … os quadros…, quando são mesmo autênticos, os desenhos, quando se reconhece neles o traço do mestre … dormem um sono reparador e proveitoso… A … venda … das curiosidades e dos quadros do Sr. R. … provou por algarismos que as obras de gênio são valores tão sólidos quanto os títulos da companhia ferroviária Orléans e um pouco mais seguros que os das lojas de departamentos. Charles Blanc, Le Trésor de la Curiosité, vol. II, Paris, 1858, p. 578.” (p. 243).

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Toda/o fotógrafa/o é um/a colecionador/a, mas nem todo colecionador é, necessariamente, um fotógrafo. Coleções fotográficas são tão antigas quanto a sua técnica. O processo analógico sempre garantiu a condição tátil exigida por uma coleção, mas, com o surgimento do digital, a materialidade da fotografia teria se tornado dispensável? Eu acredito que não. O constante aperfeiçoamento tanto das câmeras quanto das impressões garantem que os itens produzidos e adquiridos continuem a manter a tradição do colecionismo. O ciclo se completa com uma bela imagem no papel.

Iniciar uma coleção fine art exige alguns cuidados, é importante estudar o assunto. Além disso existem galerias dedicadas à fotografia fine art que podem fornecer todas as informações necessárias com relação ao tema colecionismo. Para iniciantes existe também o Clube de Colecionadores de Fotografia do Museu de Arte Moderna de São Paulo que, além de facilitar a aquisição de obras, também oferece uma série de benefícios para seus sócios. Vale a penha conhecer.

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Catálogo da exposição Olhar e Fingir. Composta por obras produzidas ao longo de toda a história da fotografia, Olhar e fingir: Fotografias da Coleção Auer  apresentou, em 2009, uma seleção de quase 300 das cerca de 50 mil obras da coleção.

“Assim, decifrando o diário da melancólica (ou feliz?) colecionadora de areia, cheguei a interrogar-me sobre o que está escrito naquela areia de palavras escritas que enfileirei durante minha vida, aquela areia que agora me parece tão distante das praias e dos desertos da vida. Talvez fixando a areia como areia, as palavras como palavras, possamos chegar perto de entender como e em que medida o mundo triturado e erodido ainda possa encontrar nelas fundamento e modelo” – Italo Calvino, Coleção de Areia, p. 15/16.

Referências bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2009.

CALVINO, Italo. Coleção de Areia. São Paulo: Cia. Das Letras, 2010.

DURKHEIM, Émile. Sociologia – Org. José Albertino Rodrigues. São Paulo: Ed. Ática, 2008.

Ler também:

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II – Rua de mão única. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987.

Escrito por

Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.