NFT e a corrida do ouro na era digital

Obra do artista Beeple "Everydays: the First 5,000 Days" vendida por US$ 70 milhões
Obra do artista Beeple "Everydays: the First 5,000 Days" vendida por US$ 70 milhões

Há pelo menos um ano a pandemia e seus desdobramentos têm tomado conta dos noticiários mundiais. Não preciso entrar em detalhes, o dia a dia não me deixa mentir. Mas nas últimas semanas um assunto conseguiu chamar atenção, pelo menos das pessoas que estão mais antenadas às noticias do mercado de artes e tecnologia: o tal NFT. A venda do, até agora, NFT mais caro do mundo foi em parte responsável por esse burburinho. A obra do artista Beeple foi vendida num leilão da conceituada casa Christie pela bagatela de US$ 69,3 milhões.

O NFT entrou na minha vida quando enviei a reportagem da revista Rolling Stone sobre esse assunto para o meu chefe e agora estou aqui escrevendo para vocês. Como disse o sociólogo Michel Maffesoli “a coisa gruda” (esse fragmento de frase, retirado do contexto, pode soar estranho, mas é verdadeiro!) e minha missão durante a última semana foi tratar de conhecer essa nova (nem tanto assim) promessa oferecida pela tecnologia.

A opção que faço aqui é a de não privilegiar tanto as definições, pois, como disse, elas estão em vários sites. Tem um guia (cético) introdutório muito bom feito pelo artista Justin Cone que vale a pena ser visitado e se você jogar no Google não será muito difícil encontrar informações, já tem até curso (sério!). Ah, mas porque escrever sobre isso então? Aqui iremos propor um olhar um pouco mais cauteloso. Mas alguns conceitos são importantes então vamos começar por eles.

Criptomoeda e blockchain

Atualmente a criptomoeda mais conhecida é o Bitcoin, enquanto escrevo este texto o valor de 1 bitcoin corresponde à R$ 314.213,23. Esse preço varia muito de acordo com a oferta e demanda, pois trata-se de uma moeda virtual, ela não existe fisicamente e tampouco é a moeda oficial de algum país. Seu controle não é feito por um Banco Central, mas de maneira totalmente descentralizada por uma rede que opera dentro do universo Bitcoin.

Os membros dessa rede são chamados de mineradores. É a partir desse trabalho de mineração que as transações são aferidas e as moedas são geradas. Lembrando que não existe uma casa da moeda para emitir esse dinheiro em espécie. Ele precisa ser “minerado” em direta alusão ao método de extração do ouro. Esse controle é feito por meio da blockchain. Trata-se de uma espécie de livro-razão onde todas as transações confirmadas ficam registradas em blocos que são encadeados. Cada computador possui uma cópia integral da blockchain de modo a garantir transparência e consistência dos dados. Eu só posso gastar o que eu possuo e não há uma maneira de tapear o sistema, pois lembre-se: todo o histórico de transações realizadas está gravado em todos os computadores, não é possível alterar informações no “passado”.

Existem outras criptomoedas, a segunda mais conhecida é a Ether que pertence à blockchain Ethereum. O valor em Real está, neste momento, em 9.813,27. Ela é uma das blockchains que permite, graças a uma particularidade, o registro da chave do NFT, o código que vai tornar a obra a ele relacionada única e autêntica. Esse processo de atribuição desse código é chamado de “tokenização” ou mint e também é realizado pelos mineradores que atuam dentro do universo Ethereum.

NTF

O NFT (non-fungible token) nasce a partir desse registro na blockchain. Ele é a garantia de que se trata de uma obra única e comprova a sua autenticidade. Esse movimento, dentro do meio digital, garante mais exclusividade em um meio onde tudo pode ser copiado e reproduzido sem muito critério. É uma maneira de trazer um pouco da “aura” da obra de arte do mundo físico para o mundo virtual.

E isso não se restringe às artes visuais digitais; jogos, músicas, memes, gifs, vídeos e até tuítes “importantes” podem ser tokenizados e negociados como itens colecionáveis. Apesar das cópias continuarem disponíveis, a propriedade do original pertence ao comprador que, de acordo com as especificações do contrato, pode fazer o que bem entender com o NFT.

NFT
O primeiro tuíte do mundo, do fundador do Twitter Jack Dorsey, pode ser vendido por US$ 2,5 milhões

Para os artistas digitais isso representa uma grande conquista, uma oportunidade de valorizar suas criações e conseguir valores mais robustos nas suas vendas. Atualmente existem plataformas como a Rarible e a OpenSea que são abertas para novos artistas e aquelas plataformas mais exclusivas como a SuperRare e a Nifty Gateway.

NFT
Nyan Cat foi vendido por $587.000 em Ether

Quando eu cheguei aqui era tudo mato!

É mais ou menos esse o atual estágio dos NFT’s. Neste momento costumam brotar muitas esperanças, mas também muitas incertezas. Como na tradicional corrida do ouro, saber onde cavar é tão importante quanto saber diferenciar ouro de pirita. Se você já está familiarizada/o com o criptoverso conhece as precauções necessárias, mas se não seguem algumas dicas e reflexões:

  • Se você sabe pouco ou nada sobre blockchain e criptomoedas primeiro estude sobre o assunto.
  • Para colocar sua arte à venda em uma plataforma você precisará de uma carteira virtual (digital wallet). É uma conta que será aberta para movimentar as transações em criptomoedas. Lembre-se que a principal blockchain de NFT é a Ethereum, então preste atenção se ela está contemplada na carteira escolhida.
  • As contas normalmente são abertas gratuitamente. Mas as empresas cobram taxas para compra de criptomoedas, conversão de valores, fazer saques e transferências. É preciso atentar para o valor mínimo e o máximo que cada uma permite movimentar. Esse valor normalmente é dado em criptomoeda. Vamos utilizar o Ether como exemplo: a empresa pode estipular como valor mínimo para saque eth 0,001 (uma fração de Ether) que na cotação que coloquei acima corresponderia à R$ 9,81. Pesquise uma carteira confiável e leia todos os detalhes.
  • É preciso ter cuidado redobrado com chaves de acesso e a movimentação feita tanto em computadores quanto celulares. Existem as carteiras frias (cold wallets) que não estão conectadas à internet e por isso oferecem mais segurança contra hackers, mas não são muito baratas.
  • Toda transação realizada na blockchain tem uma taxa chamada gas fee. Essa taxa varia com o dia e de acordo com a complexidade da operação e a rapidez com que se deseja vê-la confirmada. Pagamentos, transferências e tokenização das obras são cobradas. É preciso destacar que a tokenização é considerada complexa, logo tem uma taxa maior. Mas pra quem vai essa taxa? Lembra dos mineradores? São eles que fazem o registro dos NFT’s e a confirmação das transações. Se você quer um serviço mais rápido precisa pagar mais.
  • Precisamos falar sobre essa gas fee. Realizar a mineração requer muito hardware e muita energia elétrica. É quase literalmente uma taxa pelo combustível utilizado na operação. Essa utilização em larga escala de recursos já provoca discussões sobre o impacto das blockchains nas questões climáticas. Toda a cadeia desde a produção do hardware até a energia elétrica envolvida na manutenção do funcionamento dessas estruturas precisa entrar na conta. O criptoverso pode ser tudo, menos verde. Há um esforço para diminuir esse impacto, mas a diferença, por enquanto, é muito pequena. Para saber mais sobre as taxas embutidas visite: https://www.businessinsider.com/nft-investing-crypto-art-what-is-a-gas-fee-explained-2021-3.
  • Acima citei dois grupos distintos de plataformas: as indicadas para iniciantes e as mais exclusivas. Sim, dentro do NFT também há a distinção entre artistas mais renomados e os recém-chegados. Da mesma maneira o grosso do dinheiro está onde? Nas plataformas exclusivas, claro. Os mais famosos continuam ganhando mais. Você vai precisar investir na sua presença online para pleitear um lugar de destaque.
  • Visite as plataformas, conheça os trabalhos oferecidos, visite sites e redes sociais das/os artistas, a estética NFT é bastante peculiar, vale a pena explorar esse mundo primeiro se você ainda não está muito por dentro.

A pergunta que não quer calar

É uma bolha? Sem mais delongas, de acordo com o que li até agora posso responder que sim, trata-se de mais uma bolha. Vejamos a compra da obra do artista Beeple. Ela aconteceu em 11/03/2021, por aproximadamente US$ 70 milhões, maior valor pago por um NFT e terceiro maior valor pago pela obra de um artista vivo na história, até o momento. Em 18/03/2021 a identidade do comprador foi revelada.

O pseudônimo “MetaKovan” pertence ao empresário indiano Vignesh Sundaresan. Ele e seu sócio Anand Venkateswaran (Twobadour) são o fundadores da Metapurse, empresa de investimentos focada no criptoverso. Como nos diz a reportagem da revista Exame: “Sundaresan, entretanto, está envolvido com o mercado de criptoativos desde 2013, muito antes da criação da Metapurse, quando criou a exchange canadense Coins-e, que já não existe mais, e foi cofundador de um projeto de caixas eletrônicos de compra e venda de bitcoin chamado BitAccess”. Se ele queria publicidade para o NFT ele conseguiu!

Mas e a Mona Lisa?

Pois é. As reportagens escolheram o exemplo do quadro do mestre Da Vinci para explicar a questão da obra única e da escassez (por alguma coincidência a maioria utilizou esse exemplo). Mas a Mona Lisa não é o que é apenas por ser única. Isso conta e muito, é claro. Mas ela carrega todo o histórico de uma obra que foi feita em 1503. Van Gogh vendeu apenas 1 quadro em vida e ele sempre foi Van Gogh e seus quadros únicos. O que muitos não querem enfrentar é a influência do mercado.

 

NFT
Mona Lisa (PixelArt) by Deni_Y on Dribble

 

O “destino” do capitalismo é a acumulação exponencial e perpétua. Crescimento zero significa crise, recuo catástrofe. Nos últimos anos boa parte do seu crescimento ocorreu por meio das bolhas. As criptomoedas já são consideradas bolhas, os NFT’s poderiam ser considerados uma bolha dentro da bolha e isso pode soar como um sinal de alerta. É a mercantilização dos bits, é produzida uma escassez artificial/virtual para justificar valores mais robustos e aproximar a arte digital da arte tradicional. Não por acaso a venda da obra do Beeple aconteceu em uma conceituada casa de leilões, essa escolha não foi ao acaso.

Estamos no começo, mas é possível imaginar que exista um limite para a valorização de uma obra digital. Quantas vezes ela será revendida? Existe uma forma de expectativa de vida da obra? Qual o aumento de preço que ela pode alcançar? Existe um timing que ainda desconhecemos por falta de um período histórico que possa ser analisado. Mas é certo que as coisas acontecem e mudam muito depressa no ambiente virtual. Ainda é cedo, mas essas reflexões precisam estar no nosso horizonte.

Considerações finais

Este texto é bem introdutório e está longe de esgotar o assunto. O NFT representa uma grande inovação para criadoras/es digitais. A possibilidade de a obra ser autenticada e comercializada como peça única proporciona um grande avanço para a valorização e comercialização das criações. A possibilidade de ganho de uma porcentagem toda vez que ela é revendida (dentro da mesma plataforma) também é benéfica. O caminho não é tão suave. É preciso investir em conhecimento sobre o que chamei aqui de criptoverso e, para iniciantes, batalhar por um lugar ao sol, nesse aspecto pouca coisa muda.

Escrito por

Tem se dedicado aos estudos de fotografia e imagem desde 2005. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.