Fotografia e Mercado Fine Art

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Cena do filme "Amadeus" de Milos Forman, 1984

No livro “Mozart – Sociologia de um Gênio” Nobert Elias fala da vida e tragédia do grande compositor a partir de uma análise do contexto histórico e social em que Mozart viveu. Ele começa o livro da seguinte maneira:

“Wolfgang Amadeus Mozart morreu em 1791, aos 35 anos, e foi enterrado numa vala comum a 6 de dezembro. Qualquer que tenha sido a doença aguda que contribuiu para seu prematuro falecimento, o fato é que, antes de morrer, Mozart várias vezes esteve próximo do desespero. Aos poucos, foi se sentindo derrotado pela vida. Suas dívidas aumentavam. A família se mudava de um lugar para outro. O sucesso em Viena, que para ele talvez significasse mais do que qualquer outro, jamais se concretizou”.

 

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Cena do filme “Amadeus” de Milos Forman, 1984

 

Mozart estava à frente do seu tempo e pagou um preço alto por tentar desafiar o status quo da época. Beethoven, com 21 anos de idade, chegaria à Viena em 1792, um ano depois da morte de Mozart, e sua sorte já seria bem diferente.

Mas o que Mozart e Beethoven têm a ver com mercado Fine Art? Tudo! Bom, não eles exatamente. Mas estamos falando de uma época que foi um divisor de águas para a humanidade: Revolução Francesa e Revolução Industrial. A ascensão da classe burguesa, o desenvolvimento das cidades e o desenvolvimento do capitalismo trouxeram uma nova maneira de comercialização e a arte não ficou de fora dessas mudanças.

Desde o seu surgimento, a fotografia tem se prestado aos mais diversos propósitos: retratos, produção de memórias, álbuns de família, denúncias, publicidade, ciências, artes, catalogações em geral, etc. Sua história acompanha o desenvolvimento da sociedade pós-revolução industrial e a julgar pelo seu aparecimento recente, em termos históricos, essa atividade passou por diversas transformações e avanços. Hoje, ainda mais popularizada, está presente nos smartphones e pode ser compartilhada, através das diversas redes sociais, com milhares de pessoas no mundo inteiro tão logo seja produzida. O desenvolvimento de técnicas de impressão que garantem qualidade e longevidade a colocaram definitivamente no mercado de arte.

 

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© Walker Evans, Allie Mae Burroughs (símbolo da Grande Depressão) 1935

 

Hoje a fotografia Fine Art pode ser “consumida” em museus, galerias, institutos culturais, festivais, prêmios, feiras especializadas e também (ou principalmente) online. Também é importante ficar por dentro dos eventos que ocorrem relacionados à fotografia e às artes em geral: cursos, palestras, bate-papo e afins. Trocar ideias e ouvir pessoas com perspectivas diferentes enriquece nossa bagagem e nos auxilia a encontrar nosso caminho.

“Eles/as (artistas) não esperam ser convidados/as. Os/as artistas não pedem permissão para pintar , escrever, atuar ou cantar; simplesmente vão lá e fazem. O que tende a diferenciá-los/as e lhes dá sua força e propósito não é a criatividade em si – isso todos nós temos. É o fato de trem encontrado para ela um foco, uma área de interesse que estimulou sua imaginação e forneceu um veículo para seus talentos” (Will Gompertz – Pense como um artista. A parte feminina do texto foi acrescentada por mim).

Eu já citei anteriormente o livro do Gompertz, de onde tirei o trecho acima. Ele é ótimo para nos dar algumas dicas necessárias; por meio de citações e notas biográficas de alguns artistas consagrados ele mostra alguns processos de criação e também nos ensina que na arte precisamos ter um lado empreendedor, assunto que às vezes pode ser um pouco delicado. Existe um acordo tácito que parece dizer que os artistas precisam ter o espírito “desinteressado”, sob pena de serem considerados comerciais. Este não é o espaço para tratar  deste assunto, mas como disse antes, as relações de troca mudaram e vivemos em um sistema que não deixa muita margem para não se preocupar com dinheiro, a menos, é claro, que você já tenha muito.

A inserção no mercado Fine Art não possui uma regra, ela pode variar de artista para artista. Redes sociais trazem visibilidade, participação em exposições, festivais e premiações, publicações, bolsas de pesquisa e o próprio ambiente acadêmico irão proporcionar a construção de um bom currículo. Além do currículo, sem dúvidas, muita experiência e isso fará com que seu olhar fique mais apurado e isso irá refletir no ganho de qualidade que seu trabalho irá ter. Eu já falei antes, mas não custa repetir: a vida é nossa grande inspiração e em muitos casos uma simples inclinação de cabeça poderá te dar uma perspectiva nova. Sempre penso que precisamos “ouvir” a foto, saber o que ela pede de nós. É nesse momento que conseguimos enxergar quais regras manter e quais quebrar para produzir uma imagem realmente relevante.

 

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© Colette Urbajtel / Archivo Manuel Álvarez Bravo, S.C – Castillo en el Barrio del Niño (Fireworks in the Barrio del Niño), 1990

 

Outra dúvida que costuma aparecer é com relação à tiragem. A tiragem é, grosso modo, o número de cópias que serão feitas de uma obra. Uma fotografia pode ser impressa e reimpressa, neste caso o que irá determinar o valor da obra é a quantidade de cópias que ficarão disponíveis para venda no mercado, quanto menor a tiragem mais valor a obra terá. A edição limitada garante que ao final daquele número de cópias não será feita mais nenhuma impressão daquela imagem e isso confere seriedade e valorização. Com a possibilidade de ser impressa em diversos tamanhos é possível que cada dimensão possua uma tiragem. Esse número é estabelecido de acordo com as regras da oferta e da demanda e, principalmente, com a experiência e renome do/a artista.

 

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© Barbara Kruger, Untitled (Not cruel enough), 1997

 

Creio que consegui abordar alguns pontos principais, já estourei e muito o espaço! Mas abaixo vou deixar algumas referências bibliográficas para quem quiser se aprofundar neste e outros assuntos referentes à fotografia. Essa conversa irá surgir em posts futuros, continuem nos acompanhando e até semana que vem.

Referências:

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas vol. 1: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994

BOURDIEU, Pierre. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. Porto Alegre: Zouk, 2006

ELIAS, Norbert. Mozart: a sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995

GOMPERTZ, Will. Pense como um artista: … e tenha uma vida mais criativa e produtiva. Rio de Janeiro: Zahar, 2015

Escrito por

Publicitária com especialização em fotografia, blogueira e atualmente estuda Ciências Sociais. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.

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