Fine Art: alguns conceitos e como nasce uma obra de arte

Fine art
© Aleksandr Ródtchenko - Lily Brik, 1924

Nos dois posts anteriores nos debruçamos sobre a lista de trinta artistas com trabalhos em fine art reconhecidos e premiados. Mas o que faz uma fotografia ser boa? Essa poderia ser a pergunta de 1 milhão. Não existe uma receita infalível, pelo menos não conheço, mas algumas coisas são imprescindíveis: saber o que nos move, estudo, prática e observação. Muito já foi dito e muitos artistas, inclusive, já dedicaram algumas linhas para falar sobre fotografia. Pensadores/as e até mesmo o cinema já abordaram esse tema, mas ao contrário do que possa parecer esse assunto está longe de ser esgotado. Como disse Mapplethorpe “é tudo mesmo só uma questão de luz”, claro que foi um devaneio, mas ali está resumida a essência da fotografia. Já aviso que coloquei duas citações robustas no texto, mas não tinha como ser de outro jeito, usando a desculpa da academia, algumas coisas não podem ser ditas de maneira melhor!

 

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© Robert Mapplethorpe – Flower arrangement, 1988

 

Logo que começamos a estudar fotografia entramos em contato com questões técnicas: iluminação, fotometria, exposição, velocidade do obturador, filtros, rebatedores, flash, enquadramento, composição, profundidade de campo, regra dos terços, proporção áurea, corte, ISO, ruído, grão (no meu primeiro curso ainda usava câmera analógica!), filme, digital, processo histórico, pós-produção e por aí vai. São várias possibilidades e as escolhas costumam ser feitas  levando-se em conta o assunto e, de acordo com o projeto, temos maior ou menor controle sobre as questões técnicas. As condições de uma sessão num estúdio, por exemplo, são bem diferentes daquelas encontradas quando se registra um conflito ou quando utilizamos um processo histórico.

 

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© Ana Paula Umeda – Cianótipo (exemplo de processo histórico)

 

Se consegui ver mais longe, foi porque subi nos ombros de gigantes – Isaac Newton

Tem uma frase atribuída a Pablo Picasso que diz “aprenda as regras como um profissional, para que você possa quebrá-las como um artista”. É bem provável que ele tenha falado isso em algum momento, mas por que ela é interessante para nós? Porque depois de treinar bastante, dominar a técnica e observar (e por que não imitar) outros/as fotógrafos/as chega o momento em que temos que encontrar o nosso modo de fazer, saber o que deve ser deixado e o que manter. O Eclesiastes (1:9) já nos ensinou “não há nada de novo sob o sol” e Will Gompertz no livro “Pense como um artista” nos fala que “é assim que as ideias são geradas. Combinações incomuns, a mistura do novo com o velho, estimulam ideias originais, isto é, ideias que têm origens”. Um pouco mais adiante no livro ele ainda nos diz que “nossa maneira única de ver induz às escolhas que fazemos, o que diferencia nosso trabalho de todo o resto do mundo. Nosso ponto de vista é nossa assinatura”. O segredo é observar  e saber reconhecer aquilo que pode ser combinado com o algo novo que se quer criar, saber como fazer essa ponte entre o passado e o presente, não é “roubar” pura e simplesmente, mas entender que de alguma maneira tais referências podem ser muito úteis se utilizadas de forma criativa, e isso não serve só para o mundo das artes, mas para vários aspectos de nossas vidas.

 

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© Aleksandr Ródtchenko – Lily Brik, 1924

 

Ainda sobre referências e modos de fazer eu me permitirei citar um parágrafo do livro “Criatividade e Processos de Criação”, Fayga Ostrower nos diz que:

“A integração da experiência em padrão referencial é um processo que continua pela vida afora. É um processo de memória e de conscientização. Permanece processo alterável, porquanto, ao se discriminar a personalidade do indivíduo, orienta-se e também se amplia a base para se avaliar os fatos da realidade e os próprios conhecimentos que se adquire. É um processo simultâneo de subjetivação e objetivação, abrangendo valores pessoais e culturais e interligando o plano da expressão com o da comunicação. Corresponde ao nosso crescimento interno, às nossas definições interiores; corresponde a um processo de configuração em que criamos continuamente novas formas de viver e, nelas, as formas do nosso fazer”.

 

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© Assis Horta – Diamantina/MG

 

Uma fotografia é um segredo de um segredo. Quanto mais ela te fala, menos você sabe – Diane Arbus

Adoro essa frase da Arbus e ela combina com a próxima citação de peso que irei fazer logo menos. Agora que já sabemos fotografar precisamos saber o que fotografar, o que queremos mostrar ou esconder? Qual história queremos contar? E é aqui que entra a necessidade de saber o que nos move, aonde queremos chegar? E para responder a estas questões é necessário saber quem somos, como disse Sócrates: conhece-te a ti mesmo. No livro “O destino das imagens”, Jacques Rancière diz que:

“Ora, tal duplicidade (a imagem como presença sensível bruta e a imagem como discurso cifrando uma história) não é nada evidente. Ela define um regime específico de imagéité*, um regime particular de articulação entre o visível e o dizível, no seio do qual nasceu a fotografia e que lhe permitiu se desenvolver como produção de semelhança e como arte. A fotografia não se tornou uma arte porque aciona um dispositivo opondo a marca do corpo à sua cópia. Ela tornou-se arte explorando uma dupla poética da imagem, fazendo de suas imagens, simultânea ou separadamente, duas coisas: os testemunhos legíveis de uma história escrita nos rostos ou nos objetos e puros blocos de visibilidade, impermeáveis a toda narrativização, a qualquer travessia do sentido”.

* Imagéité: neologismo conceitual do francês ausente nos dicionários vernaculares; corresponde à formação de um substantivo abstrato a partir da palavra “imagem”, distinto de “imaginação”.

 

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© Diane Arbus – A young man in curlers at home on West 20th St., NY, 1966

 

Com essa dupla dimensão da fotografia em mente o céu será o limite, ou não! O espaço é limitado, mas espero ter conseguido transmitir alguns conceitos importantes, as referências possuem informações muito interessantes, além as citadas aqui, vale à pena conferir. Tudo isso é um processo e cada um, a seu tempo, conseguirá perceber mudanças substanciais no ver e no fazer uma fotografia e conseguir transformá-la em Fine Art. Leia, visite exposições, assista filmes, ouça música, converse com as pessoas, olhe ao seu redor e construa a sua bagagem, lembre-se: o seu ponto de vista é a sua assinatura, é a sua maneira única de contar uma história.

 

Referências:

GOMPERTZ, Will. Pense como artista. Rio de Janeiro: Zahar, 2015

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2010

RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012

Escrito por

Publicitária com especialização em fotografia, blogueira e atualmente estuda Ciências Sociais. Está sempre com os olhos abertos, ouvidos atentos, imaginação fértil e a língua afiada.

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