Como a arte contemporânea deixou de ser contemporânea

Damien Hirst - Tubarão
LONDON, ENGLAND - APRIL 02: Members of the public view artwork by Damien Hirst entitled 'The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living' in the Tate Modern art gallery on April 2, 2012 in London, England. The Tate Modern is displaying the first major exhibition of Damien Hirst's artworks in the UK, the collection brings together over 70 of Hirst's works spanning three decades. The exhibition opens to the general public on April 4, 2012 and runs until September 9, 2012. (Photo by Oli Scarff/Getty Images)

Defendo que aquilo que genericamente é apresentado como “arte contemporânea” já não representa o tempo contemporâneo, é uma arte do passado.

A maioria dos historiadores considera “arte contemporânea” a que é realizada a partir do pós-II Guerra até hoje ou, para alguns, a que emerge na década de 60 até ao tempo presente. São definições meramente temporais que explicam pouco sobre os conteúdos e o contexto cultural. Esta dificuldade não deve contudo surpreender. A explosão criativa, operada nas décadas de 60 e 70, declarou o fim das disciplinas artísticas e operou uma sistemática ampliação do campo da arte que da pintura e escultura passa a incluir praticamente tudo, canibalizando outras formas de expressão, como o teatro na performance, a fotografia e o cinema na apropriação das imagens, a vida social numa arte de protesto, o próprio corpo do artista, e até os seus dejetos com Manzoni e a sua famosa lata com “merda de artista”, ou a ideia na arte conceptual, cujo radicalismo levou à exposição do ar condicionado do grupo Art & Language, onde simplesmente se ligou o ar condicionado de uma galeria de arte vazia. Isto só para dar alguns exemplos.

Esta explosão eliminou a possibilidade de se recorrer às distinções estilísticas habituais. Como definir uma arte que resulta de um tudo é possível? Onde não existem parâmetros preestabelecidos, nem um campo delimitado de ação? Daí que alguns autores falem sobretudo do próprio processo de desconstrução do conceito de arte. Ou seja, uma “arte contemporânea” que extravasa as velhas noções de pintura, escultura ou desenho para se envolver com ideias, atitudes, provocações. Essa arte, das décadas de 60 e 70, é assumidamente subversiva, iconoclasta, política de muitas maneiras. Insere-se numa época contestatária, de que o Maio de 68 é para nós europeus a grande referência e nos Estados Unidos pode associar-se às lutas pelos direitos cívicos, raciais ou ao feminismo.

Todavia a partir dos anos 80, com o regresso do conservadorismo político e social, reproduzido no plano cultural no pós-modernismo e na ideia de fim de história, negação da evolução, irrelevância do sentido e descrença no próprio destino da humanidade, a arte perde capacidade crítica e lentamente deixa de ser uma prática de artistas e torna-se num complexo sistema de mercado.

O mercado passa a regular a qualidade e relevância das obras da arte através de uma série de agentes, funcionários públicos, galeristas, diretores de centros de arte e museus. Os colecionadores tornam-se na voz dominante enquanto os artistas se remetem a um papel secundário caindo num extremo individualismo. Os críticos de arte desaparecem para dar lugar a promotores e relações públicas dos interesses dos colecionadores. O debate sobre arte resume-se agora a cotações.

Este processo é aliás similar ao que sucedeu na música, no cinema ou na moda e em geral na chamada cultura popular ou de massas.

A apropriação pelo mercado da “arte contemporânea” tem resultado numa evidente manipulação do gosto que sobrevaloriza o fácil, o kitsch, enfim, o anódino. Numa lógica de repetição, consolidação de obras e artistas determinada exclusivamente pelo valor mercantil, profusão de derivados apresentados, tanta vez, como novidades. Aliás, a técnica do derivado, ou seja, a manipulação, esperta ou gratuita, do já feito noutra época com outra relevância, tornou-se na grande fonte de “inspiração” de muitos artistas. Veja-se como o método duchampiano do ready-made, em que o artista altera o contexto de um objeto pré-fabricado, se tornou num modelo dominante da produção artística da “arte contemporânea”.

Compreende-se. O mercado não quer verdadeira inovação mas aquilo que possa valorizar as obras em carteira. Um colecionador que tenha adquirido um conjunto de obras quer sobretudo garantir e se possível aumentar o seu preço. Daí que os museus e centros de arte, transformados em verdadeiras agências de promoção dos investidores, façam circular as mesmas exposições e as mesmas obras. Um estudo recente nos Estados Unidos mostra como os grandes museus preenchem o grosso da sua programação, nalguns casos até 75%, com artistas das cinco maiores galerias americanas.

Esta realidade, conhecida de todos, tem gerado um efeito perverso. É cada vez mais diminuta a renovação geracional. Enquanto as décadas de 60 e 70 produziram dezenas de novos artistas altamente criativos e disruptivos, como agora se diz, atualmente são muito poucos os que conseguem furar o bloqueio imposto pelo mercado. Praticamente não existem novos artistas e aqueles que se apelidam de novos ou emergentes são, na sua maioria, meros copistas dos consagrados. Por isso a “arte contemporânea” é hoje um verdadeiro mercado de memorabilia que promove o já visto e o já feito, só integrando pontualmente aquilo que o pode legitimar.

A arte contemporânea que foi determinante nos anos 60 e 70, época em que as obras mais relevantes foram realizadas, entrou em decadência a partir dos anos 80, transformando-se numa mera commodity sem capacidade crítica nem, diga-se, criativa. A arte banalizou-se, adaptou-se ao gosto do novo-riquismo, esqueceu a sua própria origem e história, alinhou com os interesses de curto e médio prazo de quem investe em quantidade mais do que em qualidade.

Neste processo, fechada numa lógica interna autorreferencial, de autopromoção e reprodução de derivados a “arte contemporânea” foi também perdendo contacto com o mundo real e com a evolução própria da sociedade do seu tempo. Particularmente notável quando assistimos nas últimas décadas a uma ímpar revolução científica e tecnológica que afetou não só os modos de vida como a maneira como se concebem hoje os mais variados projetos criativos. As chamadas novas tecnologias, que a maioria dos utilizadores imagina erradamente serem meras ferramentas, têm vindo a acumular uma inteligência e criatividade próprias, tornando-se verdadeiros parceiros dos humanos e não já simples máquinas por eles comandadas. Isto por si só bastaria para despertar a curiosidade dos artistas.

E na realidade despertou nalguns. A partir da década de 70 começam a surgir obras, baseadas no computador, em algoritmos e em geral no novo reino do digital. São obras pioneiras que abrem um inteiro novo campo de realização da arte, a que precisamente tenho chamado “um novo tipo de arte” e que não circulam, nem integram o meio da “arte contemporânea”.

A ciência recente e as novas tecnologias delas nascidas mudaram radicalmente a forma como vemos o mundo e os seus mecanismos. Da biologia ao digital, da física às teorias da complexidade, da revolução biotecnológica à robótica, do ADN à consciência, o campo do saber não tem parado de se aprofundar e expandir. A sua influência tem-se manifestado em praticamente todas as áreas do conhecimento, incluindo nas humanidades, e inevitavelmente também na arte. A arte de hoje, a arte realmente contemporânea realiza-se numa intensa interação com a ciência e as novas tecnologias. Não implica que os artistas se devam transformar em cientistas. A arte é uma forma não-objetiva, estocástica, de conhecimento e como tal deve manter-se. Mas isso não significa que o princípio do não-saber, da ignorância e da superficialidade devam prevalecer tal como sucede na maioria da produção da chamada “arte contemporânea”. Não é necessariamente “boa arte” aquela que não se entende. Ou aquela que não tem qualquer fundamento ou propósito. O experimentalismo é um bom princípio do modo de produção artística. Mas nem todo o experimentalismo, por si só, gera algo de relevante.

A arte realmente emergente e contemporânea tem uma base científica e por isso se fala tanto de arte e ciência, enquanto reencontro das “duas culturas” na linha do texto seminal de C. P. Snow. É uma arte que se apropria do conhecimento científico para gerar novas formas de criatividade e produção de obras autónomas da ciência que esteve na sua origem.

Ao contrário da “arte contemporânea”, que assenta nos efeitos de mercado, no sem sentido e, em grande medida, num negativismo regressivo, a nova arte é essencialmente construtivista, positiva e visionária. É animada pelo desejo de construir um mundo novo por muito que isso possa parecer estranho a algumas pessoas.

Em conclusão. Defendo que aquilo que genericamente é apresentado como “arte contemporânea” já não representa o tempo contemporâneo, é uma arte do passado, salvo raras e muito pontuais exceções que só confirmam a máxima de que um relógio parado está certo duas vezes ao dia.

Defendo igualmente que a nova arte deve criar os seus próprios meios de divulgação e circulação evitando integrar o circuito da “arte contemporânea” pelo que isso tem e teria de ilusório e contraditório. A relação com a ciência parece-me, por exemplo, bem mais interessante. A nova arte do século XXI tem os pés assentes no presente, mas está apontada para o futuro. Como, aliás, sempre sucedeu com toda a arte que fez a diferença.

 

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